quinta-feira, dezembro 16, 2004

(Des)História da Educação em Portugal

Leccionei por algumas vezes a disciplina de História da Educação com diferentes designações e em diferentes escolas superiores. E é claro que nessa docência lhe dava, não desrespeitando... muito... a matriz do programa, o meu cunho pessoal. Tal passava por minimizar (ou omitir) as referências à educação "no tempo dos fenícios" (blargh!), dos "cartagineses" (Pfffff!) quando as havia mas nunca gostei de passar à frente dos clássicos gregos e romanos. António Nóvoa fez um bom estudo sobre os conteúdos dos programas das disciplinas de História da Educação (que vou tentar localizar...). Na leccionação nunca gostei de que a avaliação da disciplina ficasse exclusivamente dependente de um ou mais testes escritos (não desrespeitando, claro os momentos clássicos dos exames e/ou os direitos do trabalhador-estudante) pelo que tinha sempre outros momentos de avaliação que conduzissem à reflexão, ao debate, à troca de ideias; à pesquisa prévia por parte dos alunos...

Não dispensava, todavia, um teste final. A exclusividade de trabalhos, apresentados ou não - diz-me a experiência - conduzia a que os alunos retivessem (?) apenas os conteúdos parcelares que trabalharam (?). Pelo que um teste escrito para eu aferir da visão geral da disciplina que os alunos deveriam ter nunca faltava a disciplinas como a História da Educação.

A gente sabe que a percepção do tempo nas crianças adquire-se com a fase do pensamento abstracto piagetiano. Pelo que a noção do tempo não é fácil para cianças mais pequenas. A diferença entre 100 anos e uma década ou entre a época do "avô" e a do Rei D. Afonso Henriques pode ser confundível em crianças muito pequenas mas em jovens adultos prenúnciam algo muito errado.

Eu leccionava, entre outros, a educação no período pombalino, no período do Estado Novo e mesmo no pós-25 de Abril. E gostava sempre de proporcionar uma panorâmica extra-educação nas aulas para contextualizar a história da educação propriamente dita. Alguns alunos tendiam a confundir, nos testes, os períodos, os personagens e os factos.

E eu lia cada coisa nas respostas a estes testes... não serão tão... interessantes como aquelas coligidas por Luís Mascarenhas Gaivão em "História de Portugal em Disparates" mas tem algum interesse. Aconselho vivamente que consulte História em Disparates e divirta-se.

Vejamos, então, o que me disse uma aluna do primeiro ano:

"Salazar era um comunista (...) que andava a ser perseguido pelos pides do Marquês de Pombal. Mas conseguiu fugir para o Brasil junto com os jesuítas aproveitando-se dum grande terramoto em Lisboa e em Alverca. E levou com ele os retratos do Caetano e as cruzes de Cristo que estavam nas salas de aula das escolas e o dinheiro do subsídio literário (...) Mas o Otelo Sampaio de Carvalho raptou um barco e foi busca-lo lá ao Brasil (...) o barco ficou sem désel e parou no meio do mar. Em Timor os libertadores (?) não o deixaram entrar. E o Otelo caiu de uma cadeira e o Marquês morreu desonrado e Salazar foi para a América do Sul. Mas com o 25 de Abril tudo mudou e os fascistas puderam regressar a Portugal vindos do asilo. E com eles vieram os retornados cheios de malas e outras coisas porque já estavam fartos da guerra na colónia. E agora todos podem ir para a universidade porque é democrática e estatal"

I rest my case...

11 Comments:

Blogger Blogger said...

Desculpe lá, mas eu não acredito em tal coisa.

dezembro 16, 2004 4:19 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Eu acreditar acredito. Mas também tenho pressupor que a aluna "não batia bem da bola". O texto não é um chorrilho de disparates. É um discurso com traços esquizóides...

PJ

dezembro 16, 2004 7:59 da tarde  
Blogger Chris Kimsey said...

Já andei à procura do teste para o digitalizar e colocar aqui mas sem sucesso. Não era uma jovem de 17/18 anos mas, outrossim, uma trabalhadora estudante de vinte e muitos, algo limitada, que tendia para este tipo de discursos e confusões. Quando lhe disse que ela estava a misturar acontecimentos com cerca de 250 anos de diferença, ela disse-me que a História era "toda relacionada".

Ela escrevia muito. A frase em bold são trechos do texto dela que ainda tinha guardado nos "enviados" do meu outlook. Não tendo conseguido encontrar o enunciado de resposta dela, encontrei parte da pergunta que lhe deu origem. Tinha a seguinte ideia para comentar e mais coisas (pergunta orientada) que não encontrei:

“ …sabendo ler e escrever, nascem-lhes ambições: querem ir para as cidades ser marçanos, caixeiros, senhores; querem ir para o Brasil. Aprenderem a ler! Que lêem? Relações de crimes; noções erradas de política; livros maus; folhetos de propaganda subversiva. Largam a enxada, desinteressam-se da terra e só têm uma ambição: serem empregados públicos. Que vantagens foram buscar à escola? Nenhumas. Nada ganharam. Perderam tudo. Felizes os que esqueceram as letras e voltaram à enxada. A parte mais linda, mais forte e mais saudável da alma portuguesa, reside nesses 75% de analfabetos." (Virgínia de Castro Almeida in "O Século", 5/2/1927)

Quanto a acreditar ou não, fica ao critério e cada um...

dezembro 16, 2004 9:36 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Algo limitada? Meu caro: esse pudor de linguagem fica-te bem... Julgo ter já contado noutro sítio esta história mas ela aí vai. Uma colega minha, assistente universitária, utilizou nas suas aulas a propósito de um determinado assunto, a expressão "revolução coperniciana". No exame deparou-se com uma série de alunos que utilizavam a expressão "revolução com persiana". Aparentemente alguma alma caridosa tirou uns apontamentos que se encarregou de distribuir sem que ninguém se questionasse sobre a origem de tão misteriosa revolução que tinha persiana e tudo. Custa a acreditar não custa?

PJ

dezembro 16, 2004 10:00 da tarde  
Blogger Blogger said...

Eu acredito. Só não percebo é como conseguiu chegar ao 1º ano... E isso não era num curso que forma futuros professores?

dezembro 16, 2004 10:01 da tarde  
Blogger Chris Kimsey said...

Hilariante o seu exemplo, PJ ;-D. Também me apercebi de muitas asneiras que eram reproduzidas, em cadeia, por via de um caderno de apontamentos com asneiras. E admirava-me eu porque é que muitos alunos repetiam o mesmo... "neologismo". Quanto ao facto de ter chegado ao 1.º ano de um curso superior (no caso Educacão de Infância) é um longo "debate". E não me apetece enveredar por argumentos do tipo "O que andou esta aluna a fazer no ensino secundário" para, retrospectivamente a mim, alguém dizer "o que andou esta aluna a fazer no ensino básico?" e assim por diante, percebe? Enfim :-|

dezembro 16, 2004 10:51 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Hugo: se visses alguns dos exames que tenho que corrigir até coravas! Já não se trata de falta de estudo. Isso até se desculpa. Trata-se da absoluta incapacidade de produzir um texto organizado, coerente, sem erros ortográficos e de pontuação. Saliento que a responsabilidade não é dos alunos, mas essencialmente de um sistema que praticamente só exige a redacção de um texto em alturas de exames.

PJ

dezembro 16, 2004 10:52 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Sem grande tempo para vir cá "meter a colher", apenas recordo um episódio que um Prof. de literatura da minha loja me contou recentemente: uma aluna inventou brilhantemente, num exame final, um novo género literário: o "brutesco"... ;o)))))
DK

dezembro 16, 2004 11:40 da tarde  
Blogger Chris Kimsey said...

O colega PJ colocou a questão com extrema precisão! É exactamente isso que eu sinto quando corrijo os testes de muitos alunos (do ensino superior). Ainda mais, colega, PJ, entrei, aqui há tempos, numa discussão sobre questões docimológicas onde o meu "opositor", dito das "Ciêncas Exactas", alegava que a melhor avaliação era aquela que, sem qualquer laivo de subjectividade, avaliava exclusivamente os alunos por via de testes do "sistema americano" (cruzes, verdadeiro-falso, etc.). E que a redacção, a capacidade de argumentar, de organizar uma ideia numa frase com sintaxe, eram "devaneios" do pessoal das literaturas, "educações" e "coisas assim". Ad perpetuam rei memoriam...

O "brutesco" é antes ou depois do "idiotesco"? ;-D

dezembro 17, 2004 12:10 da manhã  
Blogger Chris Kimsey said...

Definitivamente não encontrei o teste :-(. Julgo tê-lo perdido na confusão das arrumações quando mudei de escola... Helas...

dezembro 19, 2004 10:36 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

E que dizer, meus senhores, das repetições das enormidades que, por tautologia asnática, vêm nos manuais e livros de História, pois ...

setembro 25, 2008 5:34 da tarde  

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